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Roda de Poesia
 


 

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MARIA JOÃO CANTINHO

Biografia

Maria João Cantinho nasceu em Lisboa, no ano de 1963. Viveu uma parte da sua vida em África. Licenciou-se em Filosofia, fez o mestrado, do qual resultou um livro publicado em 2003: O Anjo Melancólico. Publicou, ainda, um livro de contos: A Garça (2001), dois livros de poesia, Abrirás a Noite com um Sulco (2002),ao qual foi atribuído uma menção honrosa do prémio da Associação Fernando Pessoa, e Sílabas de Água (2005). É crítica literária e de arte e colabora com várias revistas e publicações on-line, em Portugal (Periférica, Público, Mea Libra), Espanha (revista on-line Insignia) e Brasil (revista da Academia Brasileira de Letras, Jornal do Brasil). É co-editora da revista Storm-magazine.com e neste momento tem dois livros no prelo. Presentemente, encontra-se a fazer o doutoramento na área de Filosofia.


Poemas
[O que não disse | A dança primordial | Urgência]

O que não disse
 
Não, não poderia dizê-lo,
junto à margem do rio,
onde tudo parecia perfeito
e tu me pediste, em trémulo jeito:
“Deixa-te estar assim” .
 
Assinaste, nesse instante, a minha perda
com a tranquilidade de um pintor,
indicando-me o espaço do não-movimento,
um silêncio tecido de leveza.
 
Os meus lábios suspenderam-se
na única palavra que desejava ter dito
e os teus dedos tocaram a minha pele,
abrindo uma ferida secreta
e irremediável, como a luz.

Inédito de “Os nomes de Ninguém”                                                                                    Topo
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A dança primordial

De todas as formas,
este é o meu modo de ser,
improvável lugar entre as dunas e perfeição do céu
o meu modo de ser estilhaçado,
perdido num mapa que trago oculto sob a língua,
esta cartografia secreta,
onde concentro a esperança
no fogo da palavra, em sílabas de luz.

Olha-me com a ternura da primeira vez,
vê e evoca: o vento dança na areia, cantando,
vê e recorda esses milhões de grãos de luz
que navegam no longe  do mar
nesse lugar
em que poderíamos, ainda,
morar no espanto, nascer de novo
e soletrar, letra a letra,
a caligrafia luminosa do vento.

Mas não esqueças, meu amor,
como leve é a dança primordial dos corpos,
não esqueças o derradeiro fulgor do sol,
a perfeição que se desenha
por entre esse cortejo de sombras
as sombras da música, as sombras das vozes.

De todas as formas,
Este é o meu modo de ser, lenta inspiração,
nesta feroz alegria de ter um corpo
que avança contra a escuridão,
em direcção a ti, o enlouquecido coração
tão asa quanto a noite de Verão,
onde tudo se dobra, mansamente,
para beijar a terra e celebrar,
onde tudo se aquieta
até quase não ser e permanecer
a dança das coisas, os gestos suspensos,
não esqueças a respiração da terra e a glória secreta
do mar, nas sílabas do mundo.

De “Sílabas de Água
                                                                                                    Topo   
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Urgência

Um homem chegou e deitou-se,
era aquele que avançava contra o vento frio,
que se abraçava às palavras, às árvores, às flores
e no seu ventre amanhecia a luz de uma chaga,
de onde saiu um pássaro.

As nuvens voavam à altura dos seus olhos
e era preciso escutar a voz, o canto das sílabas
que sufocava no sangue,
a urgência, a terra contra o sangue
que corria nos veios azuis do seu corpo.

Na claridade do seu olhar movia-se velozmente
a paisagem, como em incertos dias de Verão,
nos seus olhos iluminava-se o assombro,
reflectiam-se as imagens e as sílabas da catástrofe,
a obscura gramática que neles se desenhava
em linhas de solidão, como sulcos de água,
escoando-se lentamente.

Era preciso lembrar a luz, recordar os vestígios,
o canto que emanava das vísceras, interrompendo o mundo,
era ali o início do círculo, o lugar onde tudo recomeçava,
o começo da liberdade, exacto,
recapitulando o destino do voo alucinado, na noite.

E era preciso não temer os nomes, a escuridão,
a alquimia que tudo funde, emergindo do sonho.
Era preciso não temer as imagens que se sucediam,
a memória interrompida, antigos nomes
que se escreviam contra as raízes, para que cantasse
a glória da infância renascida.

Na claridade do seu olhar, era já a morte em sonhos,
florescendo no horizonte do tempo
e então disse-me: bebe da minha luz,
bebe, a noite descia, puro anil,
bebe do meu sangue, bebe-me,
só aí terei sido porque te vi. Sou tu.

De “sílabas de água”                                                                                              
       Topo

   

 

 

 

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