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Roda de Poesia
 


 

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ANTHERO MONTEIRO

Biografia
Anthero Monteiro nasceu em S. Paio de Oleiros, concelho de Santa Maria da Feira, em 1946. Fez os estudos secundários em Viana do Castelo, Braga e Aveiro.
É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e é mestre em Estudos Portugueses pela Universidade de Aveiro.
Foi professor de língua portuguesa numa escola do 2.ª Ciclo em Espinho, realizou várias experiência pedagógicas e foi autor de livros didácticos de Língua Portuguesa em Portugal e em Cabo Verde. É formador de docentes na área da Didáctica do Português.
Foi director de um jornal regional e dirige há quase 30 anos um pólo de uma Biblioteca Pública.
Dedica-se há vários anos à divulgação da Poesia em escolas, bares, livrarias, bibliotecas, etc. Coordena várias tertúlias literárias, entre as quais a Onda Poética do Bar Dominó do Casino de Espinho.
Publicou vários ensaios sobre História local, Cultura e Literatura Portuguesa. Vai publicar este ano, na Roma Editora, de Lisboa, o ensaio O Misticismo Laico de Manuel Laranjeira. É também autor dos seguintes livros de poesia: Canto de Encantos e Desencantos (Elefante Editores, 2005), O Remédio é Naufragar (esgotado; ver texto integral em http://www.elefante-editores.co.pt/), Com Tremura e Desamor - Tubos de Ensaio sobre a Decadência (Corpos Editora, 2001), Cenas Obscenas- Cigarrilhas Poéticas (Corpos Editora, 2001), Esta Outra Loucura (Corpos Editora, 2002), Desesperânsia (Corpos Editora, 2003). Escreveu ainda para um público infanto-juvenil as obras A Lia Que Lia Lia (Elefante Editores) e A Sara Sardapintada (Corpos Editora, 2004) e viu alguns dos seus textos serem editados em antologias.
 


Poemas

[Viver não custa nada | Só na minha cabeça | Geografia]


Viver não custa nada
Viver
não custa nada
É só deixar correr
e perfazer
os dias da jornada
É ir no vento
ou contra o vento
mas ir

Viver
não custa nada
O que custa é sentir
este amor este lume
e não se prescindir
deste ciúme

Viver
não custa nada
O que custa é saber
que amanhã ou depois te vou perder
e o que ainda é mais triste
é ver que o Amor das minhas alegrias
afinal não existe
porque não cabe nos dias

Viver
não custa nada
que o que torna a vida impertinente
eivada de acrimónia
é o estado de alerta permanente
é esta imensa insónia
é esta sede avara
que me corrói e não pára
que me tortura e não sara
é tu seres… é tu seres o sol poente
que não volta a nascer

Viver
não custa nada
Atravessar a vida não enfada
que o Mundo é grande e vário
e viver é mesmo extraordinário
quando p´ra além dos sóis
há o sol do teu sorriso
Mas depois
é preciso vencer
todos os medos
de ver que o hoje foge
e que à socapa
tudo se nos escapa
entre os dedos

Viver
não custa nada
O que custa é entender
como é maior que o peito o coração
e como mesmo assim
eu sinto dentro em mim
o peito vão
tão cheio de vazio e desconsolo
que mais parece
a noz que se oferece
sem miolo

Viver
não custa nada

Muito menos
morrer

Canto de Encantos e Desencantos,
2.ª edição, Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2005              Topo
_______________________________
Só na minha cabeça
eu aqui
preocupado
lixado
torturado
di-la-ce-ra-do
este bicho a roer-me de dentro p´ra fora
ou de fora p´ra dentro
– já não sei bem onde tudo começa -
e tu a dizeres-me
que isto está só na minha cabeça
que isto está só na minha cabeça
que isto está só na minha cabeça

queres tu dizer
que aquilo que me faz assim triste
nem sequer existe
embora pareça
mas lá porque não entrou na tua cabeça
e nela não se aninha
o certo é que entrou na minha

e fico ainda mais
preocupado
lixado
torturado
di-la-ce-ra-do
este bicho a acabar de roer-me
sem que me apeteça
e tu a tentares convencer-me
que este verme
só existe na minha cabeça
só existe na minha cabeça
só existe na minha cabeça

é simpática essa tua preocupação
pela minha preocupação
já quase me persuadiste
mas depois volto a pensar
que se é preciso que se reconheça
que tudo só existe na minha cabeça
é porque de facto existe

deixa-me lá ficar
preocupado
lixado
torturado
di-la-ce-ra-do
para que eu não esqueça
que uma doença como essa
este mal
existe afinal
ainda que seja apenas na minha cabeça
ainda que seja apenas na minha cabeça
ainda que seja apenas na minha cabeça

não insistas comigo
amigo
não penses
que me convences
ou que esse teu pensar se me insinua
convenceres-me seria
pores na minha cabeça
o que tens na tua

de forma que tenho toda a razão em estar
preocupado
lixado
torturado
di-la-ce-ra-do
não queiras que eu endoideça
com a troca da minha pela tua cabeça
é bom que tudo assim permaneça
tu com a tua cabeça
eu com a minha cabeça
sim eu com a minha cabeça

Desesperânsia, Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2003.                                                      Topo
_______________________________
 

Geografia
às vezes deusas esplendorosas
descem furtivamente
as abas do olimpo
e são de relance entrevistas pelos mortais

todo o caminho de ítaca
está armadilhado de feitiços
e o arquipélago assombrado
por circes fulgurantes

no oriente
saram-se os tormentos dos homens
com sorrisos inebriantes
e mãos balsâmicas de volúpia

musas atlânticas
semeiam obsessões
nos sulcos da cabeça
e divertem-se ninfas a pescar pescadores
nas margens do eufrates
do reno do nilo e do amazonas

no rio de janeiro
e de março e de agosto
há seios morenos
a amamentar as loucuras viris

por toda a parte
adensa-se um aroma
que ata os mortais irremediavelmente
aos mais ténues cabelos das eleitas

e eu fui encontrar-te
ó impossível de achar
logo aqui
na esquina da minha rua

é por isso que agora me nasce
um tumor de desconfiança
por dentro dos sonhos

pode lá isto ser o verdadeiro amor?

tudo porque ultimamente
tenho estudado muito mais
geografia

Desesperânsia, Vila Nova de Gaia, Corpos Editora, 2003.                                                      Topo

   

 

 

 

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