DOS SENTIDOS
COM QUE NOS FAZEMOS
Um dos vectores mais intensamente desenvolvidos no âmbito da ADBES-Associação para o Desenvolvimento e Bem Estar Social da Cruz da Picada foi, e continua a ser, o trabalho com a infância e com os adolescentes. Esse trabalho corporiza os sentidos e os trajectos do Florescer(ser)-Centro para o Desenvolvimento Sócio Educativo, centro educativo autónomo, de raiz associativa, que nasceu em Setembro de 1986.
O centro Florescer(ser) organizou-se para responder a princípios tão generosos como:
-Educar para o desenvolvimento.
-Educar para a descoberta da cultura.
-Educar para a cidadania.
Estas questões remetem para a necessidade de uma nova cultura do acto de educar , em resposta a situações novas plenas de complexidade e de desafio. Impõe-se uma cultura do acto de educar mais universalista, valorizadora da diversidade, aberta a novos modelos de desenvolvimento socio-comunitário, que incentive a cooperação e a solidariedade entre os vários protagonistas.
Quando em 1986 criávamos o Florescer(ser), não obedecíamos apenas a um impulso da razão - as dezenas de crianças e adolescentes em situação de risco faziam-nos viver intensa e apaixonadamente os percursos de uma demanda que se anunciava plena de dificuldades, mas cujos horizontes, marcados pelo imprevisto e pelo novo, se constituiam premissa de educação como processo total e significante.
As origens e os inícios seriam comuns a tantos outros desafios que todos sabemos:
Dum espaço vazado num bairro social periférico, local de lixo e encontro de toxicodependentes, fazia-se uma Casa para a Infância e para os Adolescentes, tendo como referências princípios educativos de bom senso, tantas vezes sublinhados e tantas vezes esquecidos: um espaço educativo há-de ser um espaço em construção permanente; aberto para a vida toda nele caber; íntimo para guardar os segredos de que os meninos se fazem; diverso para ser casa de muitos e diferentes sentires; irradiante para ganhar sentido social e ser experiência de cultura. Nestes doze anos foram-se firmando e reforçando os pilares fundamentais desta aventura: a Liberdade no ser, a Criatividade no sentir, a Cooperação no agir.
Esta obsessão pela liberdade radica no entendimento de que a educação só o é quando permite e respeita a emergência do que somos, condição e origem para o que poderemos vir a ser. Porque a natureza primeira de todo o acto educativo é o ser humano em relação, ponto de partida, iniciador, mediador e co-transformador do processo em que é sujeito e destinatário em permanente simultaneidade.
Da liberdade nos fala a porta aberta do Florescer(ser), aberta para o entrar quando a vontade e o projecto chamam, aberta par o sair quando outros interesses ou necessidades o determinam. Estar no Centro, para a criança e o adolescente, é um acto livre. Mas é também um acto comprometido e responsável. Eles sabem que aqui é um espaço e um tempo que lhes pertence, mas onde o respeito pelo outro é a medida que organiza o estar. De liberdade se alimenta o projecto do Florescer(ser), tendo como único compromisso e fonte para o devir, a escuta e a atenção permanentes e sistemáticas dos anseios e expectativas da comunidade que serve.
A aprendizagem da cooperação confunde-se com a construção da cidadania. E porque os meninos e os adolescentes não são os homens de amanhã, mas são as crianças-adolescentes-cidadãs de hoje, do aqui e do agora, a acção educativa do Florescer(ser) privilegia a cooperação em todos os tempos, em todas as experiências, a todos os níveis: coooperação entre saberes diferentes, entre idades diversas, entre sentires distintos, entre expressões diferenciadas. Somos ciganos, somos tendeiros, somos "civis", somos "paisanos", somos negros, somos brancos e temos no olhar as mil cores do arco iris.
Florescer(ser) é um espaço de vida. Por isso é diverso, por isso só a complementaridade que a cooperação sustenta dá sentido e riqueza aos percursos que vamos fazendo. O Florescer(ser) é um espaço de escuta, um espaço de estruturação, uma experiência de consciencialização, de criação, de referência. O Florescer(ser) é também um Centro de Recursos ao serviço da infância e da adolescência e das famílias.
Florescer(ser) pretende organizar-se como espaço-encontro, espaço-escuta, espaço-recurso, espaço-projecto, espaço-liberdade.
Florescer(ser) quer ajudar a construir mais e melhor humanidade.